Mochilão pelo Nordeste parte 8 – Bolhas nos pés

Caucaia
Um rapaz de óculos e feição amigável abre a porta do partido com um característico sorriso no rosto. Apresento-me como militante do Paraná e logo sou bem recebido. A sede do partido em Fortaleza é ampla e confortável, uma casa antiga transformada em reduto político. Vários cartazes de campanhas antigas, movimentos sociais de toda sorte e fotos emolduradas dão ao local uma aura marxista e de luta.

O rapaz de óculos é Rudinei, ele me apresenta a Valdivino outro militante. Rudinei é reservado e tranquilo, parece estar de bem com a vida. Já Valdivino é o movimento encarnado. Os olhos são repletos de veias vermelhas, o corpo baixo e troncudo, a voz e o pensamento rápidos como um raio. Um raio… Ele começa a disparar acontecimentos, causas, lutas, desigualdades, casos e acasos da realidade em que vive. De certa forma, alguns cantos do nordeste ainda carecem de um Estado Forte e presente. Chegou ele a me dizer que em uma cidade do interior é proibido andar de capacete na moto. Afinal era a única forma de acabar com o anonimato dos crimes que lá aconteciam. Inclusive assassinatos na própria câmara municipal da cidade. Disse-me também que muitas formas de disputas nos lugares mais pobres e isolados ainda são resolvido na peixeira. Amarra-se a camisa de um com a do outro e quem ficar em pé depois da luta vence. Parece-me que ao homem nordestino a honra é crucial para sua existência. “Aqui nããão macho!” Era uma expressão comum dele.

Valdivino foi a primeira pessoa que conheci que foi atingido por um raio e sobreviveu. Segundo ele e as cicatrizes o raio entrou pelo braço e saiu pela perna. Ademais, era uma figura divertidíssima. Convidou-me para ir a uma feira noturna ali perto. Caminhamos pelas ruas até que a multidão começa a anunciar-se. Música, cores, luzes e muito cheiro de comida invadem meus sentidos. Casais de todas as idades dançavam um forró leve e agradável. Eu quis muito ter dinheiro naquele momento para poder comer todos aqueles odores novos e exóticos que anunciavam-se. Entretanto contentei-me com o sanduíche que me foi pago pelo homem do raio. Lá, sentado naqueles bancos de plástico branco, no meio da praça, ainda comentando sobre o poder destrutivo que as disputas podem gerar, confidenciou-me que sua família era também cliente desse defeito humano. Metade da família era brigada com a outra. Coisa de morte e tudo o mais. O nordeste é uma terra muito complexa, pensei.

Retornamos ao partido e logo tratamos de dormir. O amanhã estava próximo e eu tinha que seguir.

Bem cedo, pela manhã já arrumei meus pertences e tratei de minha higiene. Partilhei um café da manhã modesto com meus partidários, trocamos redes sociais, e já com o mapa revisado pus-me a caminhar. Sabia eu que teria de andar muito naquele dia. E assim foi.

Segui pelas entranhas da cidade observando placas e pontos de referência. Taxistas e guardas de trânsito eram meus conselheiros nas horas de desorientação. Já era dez horas quando a mochila começou a pesar. Na cidade grande tudo é mais difícil para um viajante. A caminhada não rende, a sede e a fome saltam como demônios dentro do ser e a desinformação é um sério problema. Exausto encontro um shopping center. Era um oásis de ar condicionado e beleza. Entrei no banheiro, lavei meu rosto, tranquei-me em uma das portas e descasei. Questionava-me o quanto mais meu corpo iria aguentar as provações que eu mesmo me expunha. Seja lá qual fosse a resposta, eu estava muito longe para pensar nisso. Recuperei o ânimo e fui em busca de água. Embebedei-me de água e ainda levei uma garrafa. A passagem dos portais do shopping para a rua foi análoga ao sair do paraíso e entrar no inferno. O sol estava de mau humor naquele dia.

Caminhei horas a fio rumo a saída da cidade que nunca chegava. Disseram-me que quando eu avistasse a Universidade Federal do Ceará eu estaria próximo a divisa. E como demorou para chegar a federal… De lá descobri que deveria andar a mesma distância que vinha caminhando desde então até encontrar uma bifurcação na pista que me levaria as estradas para as praias. Cada passo era uma luta, as bolhas multiplicavam-se em meus pés. Suava litros e minha mochila mais me parecia uma bigorna do que qualquer outra coisa. Pedindo água aqui e ali sobrevivi até chegar um um posto de gasolina onde os veículos tinham placas de vários lugares. Cozido pelo sol sentei em um banco e fiquei catatônico por cinco minutos. Um homem que saía da conveniência deu-me cinco reais espontaneamente. – Toma alguma coisa. Ele me disse com um sorriso sarcástico, apreciando meu sofrimento. Fitei-o bem nos olhos e pude ver no rosto cheio de marcas de expressões a face da travessura. Demônio… pensei. Agradeci à criatura surpreso e logo levantei. A ajuda pode vir de acima e de abaixo, lembrei. Um aviso obscuro para que eu não sucumbisse a catatonia e de que o lugar era perigoso. O Anjo Guardião, o Protetor é uma entidade de trevas, não de luz. Uma verdade difícil de aceitar, entretanto real. A batalha, a estratégia, a esperteza e a sobrevivência estão em seus reinos. Reinos estes agora bem próximos de mim, empurrando-me em um caminho de dor nos pés para adiante.

Caminhei a Avenida Bezerra de Menezes inteira até embocar na CE-085. Não havia um posto sequer durante grande parte do trajeto. Finalmente cheguei na entrada de Caucaia, cidade vizinha de Fortaleza.

Minhas forças estavam no fim. O cenário não era propício para caronas. Eu ainda estava muito próximo da capital que como qualquer outra, abriga pessoas desconfiadas e cheias de medo. Precisava me afastar mais. Mas como poderia, eu não conseguia andar nem mais um metro. Então pensei: “Só um muito loco me daria carona agora. Tinha de ser jovem e meio bicho grilo, alguém com o espírito livre, com a aventura dentro de si, mas quem?”. Esses pensamentos rondavam minha torpe mente em meio ao mormaço e a luz incrivelmente forte do sol. Eu precisava sair dali. Busquei com os olhos qualquer possibilidade de carona. Dentre todos os carros apenas um estalou em minha mente.

Ao aproximar-me do pálio azul, conheci então Igris e sua jovem família, com quem iria viajar mais alguns quilômetros.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s