Mochilada pelo Nordeste parte 7

O Encontro.
O Encontro

Acordo com a terra tremendo. O caminhão rasga a rodovia deixando rastros de vento e poeira. Ainda é madrugada e o sol está tímido além do horizonte. Olho a mulher e a criança ainda dormindo e recobro a realidade. Levanto-me sobre as pernas e contemplo os vinte e cinco anos desse corpo e mente. Encho os pulmões com o ar fresco da manhã, observo a longa estrada reta rumo a Fortaleza e logo direciono-me ao posto buscando a higiene matinal.

Num banheiro inacreditavelmente lotado, os caminhoneiros cantam em sotaques e ritmos diversos, zombam-se a cada segundo e cumprimentam-se como velhos camaradas. As conversas giram em torno de lugares a muitos quilômetros dali e situações pouco comuns a quem “não é da estrada” são contadas em alto e bom tom. Desde fantasmas até bordeis, via ali que um homem da estrada tem muitas coisas para contar. Creio que boa parte pode ter sido deliberadamente inventada ou aumentada. Seja lá como for, eu ouvi, refleti e ao final ri muito.

Já de banho tomado e com o humor revigorado era hora de recomeçar a senda das caronas. Por toda manhã andei como uma barata tonta para lá e para cá, utilizei todos os recursos persuasivos que detinha para que ao meio dia restassem poucos caminhões ali.

Retornei a rodovia e encontrei novamente a Maria e Jessica. Estavam no exato local que as deixei. Vendo que meu destino estava se entrelaçando rápido demais com o delas, tratei de retirar os lápis de cor da mochila, separando também algumas folhas do caderno. Entregando-os a menina, disse que ela faria melhor uso do que eu. Despedi-me e sem olhar para trás caminhei rumo a rodoviária.

Naquela lanchonete ao lado da rodoviária alguns carros de passeio paravam. E mesmo lá não consegui carona alguma. Logo após o horário do almoço, um despachante empiedou-se de minha situação e conseguiu encaixar-me em um dos ônibus para Fortaleza. O homem que era alto e tinha voz grave disse-me com o sotaque da região:
– Olhe meu rapaz! Você não me arrume confusão! Senão te deixo na estrada.
Respondi-lhe com um franco sorriso dizendo:
– Muito obrigado amigo, fique certo de que nem perceberá que eu estive lá.

Tratava-se de um pinga-pinga que estava vindo de Salvador, com destino a Fortaleza. Ao entrar no ônibus a procura de acento, lá ao fundo vi a mulata beldade que mais tarde descobriria chamar-se Isis. Mais rápido que o trovão e com os hormônios explodindo sentei-me ao lado dela. Ela era esguia e simétrica, o desenho do rosto lembrava-me a face das esculturas egípcias. Os seios proporcionais cobriam-se delicadamente de uma pele macia e sem defeitos. Como pudia eu ficar inerte diante desse presente divino? Aguardei a partida do ônibus e fiz o meu papel, pus-me a corteja-la.

Descontraidamente apresentei-me e perguntei seu nome. Isis é a Deusa da Maternidade e da Magia no politeísmo egípcio. Nas pequenas coisas, se você souber procurar com o devido olhar, pode-se encontrar a magia presente e identificar pontos chave do destino. Nesse caso, entendi que estava tudo correndo bem, por sinal muito bem, pois seu nome veio acompanhado de um belo sorriso. Foi o começo de uma amistosa conversa. Trocamos ideias sobre a academia, política, religião, filmes, praias e quando percebi que havia tanto afinidade física quanto mental, naqueles segundos eternos de silêncio entre um assunto e outro aproximei-me a poucos centímetros do seu rosto, cravei meus olhos no dela. Ela sorriu levemente, então nos beijamos. Discretamente a dança do amor começou. O encontro dos mundos, dois tornando-se um.

Já abraçados vendo o sol cair, ficamos contemplando a paisagem que passava por um bom tempo. Há certos momentos onde os encontros não necessitam de palavras. A presença, o calor do corpo, o carinho e a sincera entrega falam mais que todas as palavras juntas. Não trocamos telefones nem contatos. Havia um noivado que deveria ser protegido. Nunca mais a vi, e provavelmente não verei novamente. Quem sabe na próxima, pensei.

Chegamos a Fortaleza já de noite. A despedida entre eu e Isis foi cordial, porém breve. Haviam pessoas esperando por ela e eu tinha urgência em sair de Fortaleza. Ficar em uma capital exposto as criaturas da noite era suicídio. Saindo da rodoviária dirigi-me a um supermercado bem próximo. Lá lavei o rosto e usei o banheiro. Percebendo que a cidade era imensa, corri em direção a um taxista e perguntei onde era a saída da cidade rumo Jericoacoara. Prontamente o senhor grisalho cavuca o porta-luvas e retira um mapa rodoviário. Perdemos alguns minutos nos localizando e traçando uma rota. Esse senhor advertiu-me que eu demoraria horas para chegar até lá, e mesmo assim não encontraria postos de caminhoneiros tão cedo. Sem muitas opções agradeci e pus-me a caminhar rapidamente.

Segui um canal durante meia hora, dobrei esquerdas e direitas decoradas na mente. As ruas se esvaziavam e a escuridão tomava conta da paisagem. Mendigos, alcoólatras, viciados e toda sorte de criaturas começavam a sair das tocas. O ambiente ia tornando-se hostil a cada passo. Certamente eu não sairia da cidade aquela noite. Preciso de abrigo, pensei.

Confiando no Gênio Interior, num esforço em retecer as linhas do destino mentalizei; Abrigo! Abrigo! Abrigo! Segui pacientemente o caminho programado repetindo o mantra vigorosamente até que fui atendido. Ao virar uma esquina dou de cara com a sede estadual do PCdoB. Ainda haviam luzes acesas no interior da construção. Bati palmas e vi a silhueta de um homem que projetava-se por detrás do vidro. Dei graças.

Eu estava salvo.

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