Mochilão pelo Nordeste parte 6 – Desapego

Salgueiro -PE
Salgueiro -PE

Após longo período de ausência retorno aos nobres leitores com a continuação da mochilada pelo sertão. Muita coisa aconteceu desde então, inclusive outra incursão pelo Brasil, Bolívia e Peru até Machu Picchu. Mas essa é outra história. Retornemos então ao ponto onde paramos.

Imersa em poeira e suor minha pele gritava. Poucos caminhões passavam pela estrada. Minha água estava acabando e o estômago vazio. Sentado a beira da rodovia, uma moto aos pedaços para ao meu lado. Era um senhor com um jornal da Igreja Universal do Reino de Deus. Mesmo aqui, no meio do semiárido esta coisa me encontra, pensei. Ouvi pacientemente quinze minutos de pregação a procura de sinais, positivos ou negativos que possivelmente o locutor canalizaria das esferas espirituais, entretanto sem sucesso. Pedi uma carona ao velho, mas ele estava a uma quadra de sua residência.

Rumei ao posto de gasolina mais próximo a procura de um banho e de carona. O frentista, muito simpático indicou o banheiro onde havia chuveiro logo ao fundo. Evidentemente o banheiro não era dos melhores, mas naquela condição em que eu estava era como uma dádiva dos deuses.
A água em que me banhei tinha cheiro de terra mas era limpa. Segurei-me por trinta minutos ou mais debaixo da corrente fresca. As vezes podemos nos surpreender com o poder regenerativo de um bom banho.

Já revigorado tratei de arrumar uma carona. Aquele trecho especificamente não era propício para esta atividade. Dos poucos caminhões e carros que estacionavam, uns menos ainda se mostravam amistosos, sequer receptivos ao diálogo. O resultado foi uma longa espera de cinco horas até que uma ambulância estacionou. Como o sol já ia se pôr, julguei que aquela seria minha última chance real naquele dia. Tomei fôlego e rumei ao veículo.

Jair era negro, magro e com uma pequena atrofia na mão esquerda. Esse homem estava transportando um paciente esquizofrênico para a cidade de Salgueiro. Mais um louco nesse caminho, pensei.

Contemplando um crepúsculo de muitas cores no horizonte, do roxo ao dourado finalmente segui em frente. A conversa entre eu e Jair foi estritamente vã. Mulheres, bebida, botecos e festas. Jair, apesar da deficiência parecia muito articulado com as mulheres. Talvez a condição de estabilidade financeira proporcionada por seu funcionalismo público concedesse alguma vantagem competitiva numa região tão pobre, é possível também que seja um daqueles casos inexplicáveis. Seja como for, havia verdade nas histórias de conquista que contava.

Pouco depois da Lua subir chegamos ao trevo de Salgueiro. Haviam vários caminhões no posto que abrigava também uma pequena rodoviária. Despedi-me sem demoras de Jair e fui procurar um lugar para dormir. Já na primeira tentativa de convencimento com o frentista recebi uma negativa. Cansado e com fome sentei num canteiro e esvaziei a mente. Pouco tempo depois, uma mulher com o semblante do desgosto aproxima-se de mim com uma menina sadia e de olhar vivo. Timidamente ela pergunta meu nome e eu respondo. Seu nome era Maria, o da menina Jéssica. Perguntei o que uma mulher fazia com aquela criança num lugar como aquele. Foi o suficiente para ouvir uma das mais tristes histórias que já me foram contadas.

Maria que parecia ter quarenta anos na realidade tinha vinte e nove. Sua criança, dez. Ambas estavam fugindo do homem que era marido e pai. Esse senhor, segundo ela era aidético e transmitira o vírus para sua mulher. Já a menina necessitava de uma cirurgia no coração. Debilitado, o marido temia a fuga de sua mulher e não permitia que a menina se tratasse. Após um período terrível de cativeiro e medo Maria juntou forças e fugiu. Estava a uma semana fora de casa e não tinha muitos planos de para onde seguir. Tentei por horas convencê-la de que procurar a assistência social era uma opção. Mas o medo e evidentes danos a psique a impediam de tomar qualquer atitude que não fosse fugir. Tinham fome e não conseguiam pedir comida. Tinham frio e pouco faziam para se aquecer.

A alma daquela mulher havia sido sugada, torturada, maculada de forma irrecuperável para os remédios de minhas palavras, por ela não havia nada que eu pudesse fazer. O sentimento de impotência foi avassalador. Ao cair da meia noite eu faria aniversário, completaria vinte e cinco anos, e que presente eu recebi… Observei novamente a menina. Nela havia vida e estrela. Lembrei que eu carregava comigo uma caixa de lápis de cor. Arranquei algumas páginas do caderno e teatralmente puxei os lápis da mochila. Os olhos da menina brilharam. Ofereci metade do punhado em minhas mão e juntos começamos a desenhar. Por alguns minutos consegui desconectar a menina daquela realidade absurda. Era hora de arrumar comida.

Fui ao restaurante do posto, expliquei tanto a minha história quanto a da mulher e surpreendentemente de lá saí com três marmitas muito bem preparadas. A moça que me serviu disse que o dono do posto um dia havia sido sequestrado e que só foi resgatado graças a ajuda de um indigente. Desde então não se negava comida a quem pedisse naquele lugar. Dei graças e retornei. As coisas se entrelaçavam firmemente na minha mente. Havia um enigma na situação e eu precisava desvenda-lo.

Nesse dia descobri que nada está perdido por completo, que há sempre algo que se possa fazer. Mas que quando se trata dos outros, cada um é responsável pelo seu destino. Podemos ajudar enquanto passamos, mas é imprescindível seguir em frente. Minha vontade era salvar aquela mulher, mais pela criança do que por ela propriamente dita. Mas como eu a salvaria se eu mesmo estava em busca de salvação e minhas orientações a ela eram palavras ao vento? Privado de dinheiro, casa, amigos, e imerso no desapego aprendi sobre o desapego. As vezes, por mais nobre que seja o sentimento, ele também pode te paralisar, e quando se esta no Caminho Vivo, essa é a única coisa que não pode acontecer. Não há limites para a renuncia.

Encostados em um posto da polícia rodoviária federal desativado nós comemos, conversamos e dormimos. Deste presente de aniversário eu jamais esquecerei.

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