Mochilada pelo Nordeste – Parte 5 – Sozinho

O Nono Arcano.
O Nono Arcano.

Novamente estávamos lá, eu e Alysson estacados na rodovia escaldante. O sol naquele dia parecia-me um maçarico a nos castigar sem piedade. Suávamos litros. No asfalto apenas o mormaço, a poeira e os carros passando, desprezando nossa presença. Por vária vezes vi as janelas fechadas dos automóveis, imaginava como estava o ar condicionado lá dentro. Inveja… Como são automáticos esses sentimentos, pensei.

Após longa tortura, uma Parati pára no acostamento, cerca de 200 metros à frente. A corrida até lá com as mochilas foi uma batalha contra meu próprio corpo. Os membros não respondiam direito, amolecidos, estava eu à cozinhar literalmente. Ao chegarmos, encontramos um jovem casal, visivelmente divertindo-se com nossa situação. -Seis tão indo pra onde? Perguntou o rapaz ao volante. -Salgueiro! Dissemos quase juntos.

Aquele casal rumava a um vilarejo, meia distância de Serra Talhada, cidade de Lâmpião, senhor de todas aquelas terras num passado próximo, sangrento e glorioso. Uma terra de Poder! Pensei. Entramos no carro e seguimos até seu vilarejo. Rodamos por pouco tempo, sem trocar muitas palavras. Exaustos, acabamos cochilando.

Acordo com o carro já parado, perturbado por uma mosca maldita pousando repetidamente sobre meu rosto. -Chegamos! Disse o rapaz com um sorriso. Um tanto desconcertado pelo cochilo tirado, uma indelicadeza ao meu ver, juntei minhas coisas e saí do carro. Alysson recuperara o vigor, enquanto eu ainda estava letárgico. Havia um minusculo posto da polícia rodoviária a poucos metros. Sem muita demora, outro Gol pára oferecendo ajuda.

Junior era jovem também, estava acompanhado da mãe. Seguiam para Serra Talhada. Educado, formal, bem instruído, convidou-nos a entrar. Trabalhava em banco e entendia um bocado do ramo empresarial. Trocamos muitas idéias sobre empreendimentos possíveis, confessamos algumas passadas tentativas frustradas em montar negócios próprios. Fazia tempo que eu não falava sobre essas coisas, desde de a faculdade. Foi bom. Rendeu-me muitas risadas.

Certas vezes nos prendemos tanto ao mundo das idéias, às ideologias, aos nossos próprios dramas, aos dramas dos outros, que esquecemos da existência de assuntos que outrora nos foram agradáveis, coisas das quais se tem domínio, mas adormecem dentro da mente pelo desuso. Quantas paixões eu tive antes, e hoje simplesmente ignoro? O Rock, o RPG, os Animes, o Cinema, o Marketing. Percebi que estava em torpor, uma parte divertida do eu, que deveria então resgatar. Qual o problema em ser superficial as vezes? Deixar a intelectualidade doentia descansar? Deixar de lado as dores do mundo e de si mesmo? Sem essa janela, esse escape, a gente explode e sofre.

Chegando em Serra talhada, eu e Alysson nos estranhamos. Não era a primeira vez. De fato, somos teimosos, orgulhosos, de mente afiada, e como o exercício do debate ensina, dispomos de um poço de argumentos na defesa de qualquer coisa. Uma hora foi inevitável, discutimos. Queríamos seguir por rumos diferentes. Ele para São Luis, no Maranhão, eu para Jericoacoara, Ceará, afim de visitar uma amiga de longa data. Antes que os ânimos se acalorassem resolvemos por fim nos separar. Ambos chateados viramo-nos as costas e caminhamos. Intimamente, sabia que uma hora aquilo iria ocorrer, só não quando. Por vários momentos anteriores a consciência dizia:-Vá sozinho. Teu caminho não é este. Como diz o Ensinamento, respeitei a Voz Interior e assim o fiz.

A peregrinação começara ali. Sozinho, como deve ser. Assim como a carta “O Eremita”, do antigo Tarot nos ensina, deve-se deixar tudo para trás e confiar apenas na sua Luz como guia quando inicia-se o tempo de partir. E o destino dali pra frente seria mais bizarro, místico do eu poderia sequer sonhar. Naquela terra árida do sertão muitos “seres”, “vozes” e “coincidências” estavam por transpassar-me. Sobia então o gelo pela espinha. Estava realmente acontecendo.

Anúncios

Um comentário sobre “Mochilada pelo Nordeste – Parte 5 – Sozinho

  1. Nessa hora a melhor companhia é a calma. O que tinha de ser feito, foi feito; agora calma, reorganiza os pensamentos e as metas. É seguir confiante em você mesmo. Boa sorte.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s