Mochilada no Nordeste – Parte 4 – Pedindo…

Comida
Comida

Após a noite agitada acordamos ambos de mau humor. Os mosquitos haviam sugado metade de nossa vitalidade, não conseguimos dormir em paz. Sem nos falarmos muito começamos a desmontar acampamento. Um  carro se aproximara. Era o dono do imóvel, desconfiado e cauteloso que descia do carro, vindo em nossa direção. Meu desagrado era tal que não fiz questão alguma de retirar aquelas impressões do homem. -Olá. Ele disse. Apenas acenei com a cabeça. -Por quanto tempo vão ficar aqui? -Já estamos de saída. Respondi. O senhor, vendo que a barraca estava sendo enrolada, apenas virou as costas acenando com a palma da mão enquanto voltava ao carro.

Fome… Meu estomago dizia. Guardava eu cinco reais no bolso. Tive que usa-los. Corri para um mercadinho, olhei a minha volta e vi uma barra de rapadura a R$ 1, 75, 400 Gramas. Um bolinho massudo e gorduroso por mais R$ 2,00. É… Vai ter que ser. Pensei. Rachamos o bolinho que nos sustentou incrivelmente bem. Alysson prontamente rejeitou a rapadura. -Não gosto. E eu respeitei. Retornamos ao posto e lá ficamos por horas a fio. Sem sucesso algum. A cidade era um péssimo ponto para caronas. O sol marcava o meio dia. O bolo da manhã era uma vaga lembrança. Fitamos o restaurante e não tivemos dúvida. Vamos pra lá.

Novamente teríamos de pedir nosso alimento. Ao chegar na frente do restaurante, Alysson manteve-se um passo atras, como se dissesse: – É a sua vez. E realmente o era. Esvaziei minha cabeça. Não podia deixar que qualquer traço do meu ego se manifestasse. Tinha eu que entender, não estava em posição de exibir absolutamente nada que não fosse humildade.

Ser humilde não significa ser burro. Logo que entrei procurei pelo dono do local. Quando se quer algo, deve-se tratar com quem manda, com que pode realmente fazer algo. Isso a política ensina aos seus iniciados. Perguntei a um funcionário e ele me indicou uma senhora sentada à mesa, debruçada em cálculos. -Olá senhora. Disse eu calma e claramente. Arrumando os óculos ela diz: -Sim? Inclinei-me levemente em sua direção, discretamente comecei a falar. -Chamo-me Issao, esse é Alysson. Estamos vindo do Paraná pedindo carona pela estrada. Não temos dinheiro e não comemos a tempo. Pode nos ajudar? A mulher fitou-me de cima a baixo, buscando sinais de malandragem. Parecia-me que aquela cena já acontecera repetidamente a ela pela reação de normalidade que demonstrara. Após poucos segundos muda, buscou com os olhos um de seus funcionário e disse: -Faça dois PFs pros meninos aqui. Agradeci a gentileza. -Vão, sentem-se ali. Com um gesto indicou uma das mesas. Agradeci novamente e fui até onde ela indicara.

Quando sentei naquela cadeira de madeira, Alysson me olhava no fundo dos olhos sorrindo. Em seus pensamentos certamente me disse: -Se saiu bem. Logo veio a moça com dois pratos cheios nas mãos. Diferente do que imaginei, não senti vergonha nenhuma depois. Aprendi naquele momento que muitos temores são imaginários, muitas vergonhas são imaginárias. Ninguém nos lançou olhares de desaprovação, muito menos murmurou nada, como era meu temor. Pois é assim na política ou no trabalho quando você erra. Na estrada, no caminho entre os caminhos, a lei é outra e eu estava por descortina-la.

Saímos de lá satisfeitos, a dona nos desejou boa sorte. Como é solidário o povo do nordeste. Pensei.

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