Mochilada no Nordeste – Parte 3 – Custódia

Custódia - PE
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Terminado o almoço. Ainda refletindo sobre minha postura orgulhosa e altiva perante o mundo, pus-me a observar tudo o que me rodeava. Fazia muito calor, a cidade era pequena e nós visivelmente não pertencíamos aquele lugar. Minha orientalidade, a pele clara de Alysson pouco tocada pelo sol, as mochilas enormes, tudo ali era diferente e estranho em nós. Estava estampado nos olhares locais, alguns curiosos, outros rabugentos. Percebi que meu corpo e olhar, geralmente reto e pomposo, que antes servira-me como blindagem aos ataques sutis na disputa de poder, serviria-me apenas de atraso. Aqui não é um espaço político. Pensei. Devo me adaptar. Então relaxei.

Inspirei profundamente e despi a armadura que se constrói na lida da vida. Meus olhos tornaram-se mais leves, os ombros distensionaram-se, o passo ficou mais solto a voz ficou mais calma. Só então pude sentir realmente o ar que me cercava, denso, quente, forte. Até mesmo o calor do sol abrandou-se. Quanto tempo eu não me sentia assim? Eu nem me lembrava mais. Adolescência talvez? No último amor? Pouco importava.

Caminhamos rumo ao posto de gasolina. Havia uma grande lombada um pouco à frente da rodovia, era uma boa oportunidade de olhar simpaticamente nos olhos dos motoristas, afim de remover o obstáculo que significava a desconfiança na estrada. Seguindo a mesma rotina de revezamento, pus-me a acenar exibindo o sorriso. Pouco tempo depois, um Uno velho para. Era uma família, deveras humilde, aproximei-me e disse ao condutor que rumávamos a Salgueiro, onde as rodovias se cruzam. Sério, o homem de uns quarenta anos, negro e robusto vira seus olhos ao banco de trás buscando o consentimento da senhora idosa que lá estava. Ela acenou positivamente. -Entrem. Disse ele.

Poucas palavras foram ditas nessa carona, as vezes deve-se ter tato para saber quando as pessoas não desejam conversar por mais descontraído que você seja. Tanto eu quando Alysson logo o percebemos. Foi, bom. Podemos observar a paisagem cheia de rochas estranhas e arredondadas que se erguiam no horizonte.

Achegando em Arco Verde a família seguiu seu rumo e nós descemos em outro posto. Estávamos suados e apertados. Logo procuramos o banheiro, tratamos de nossas necessidades e lavamos o rosto afim de melhorar a aparência. Existe nesses caminhos um equilíbrio entre o miserável e o rico que deve ser respeitado. Nem muito certinho, nem muito largado. A educação e limpeza são regra.

Ficamos quase uma hora ali sem sucesso. O dia beirava as 4:30. Sabíamos que quando o sol se fosse ninguém nos atenderia. Corremos em direção ao próximo posto à 2 km. Mesmo antes de chegarmos lá, um Gol vermelho pára no acostamento. Era Um jovem, Danielson. Tímido, mas de olhar perspicaz, analítico. Típico daqueles mais voltados para dentro de si. Trabalhava na balança de caminhões próximo ao posto rodoviário. Um tanto sonhador, ele desejava entrar nas Forças Armadas. Nesse mesmo ano concorreria ao ITA se não me engano. Perguntou-nos sobre o que fazíamos, como viemos parar ali, para onde estávamos indo. Era o mais esperto dos que encontramos até então. Pouco tempo de viagem passou e logo chegamos ao posto da polícia rodoviária. Trocamos profiles de Facebook e nos despedimos. O aperto de mão firme de Danielson revelou também muito caráter. Estamos com sorte! Pensei.

Assim que desci minha mochila no asfalto e comecei a enrolar meu cigarro, Alysson me chama atenção. Era um carro parado na rodovia. Um policial, Antônio resolvera nos dar uma mão. Ainda fardado, de fala tranquila e olhar sereno convidou-nos para entrar e logo seguiu em frente. Ouvia ele música evangélica, que confesso, me incomodou. Entretanto, ao contrário da maioria, ele em conversa exibira sua doutrina de forma lúcida e didática. Sem forçar a conversão, apenas mostrando novas opções. Logo tratei de dar meu ponto de vista mais universalista da Divindade. Sem forma, nome ou lenda. Apenas o incognoscível, o grande mistério, o onipotente regente da orquestra cósmica. Mesmo não concordando em detalhes, em essência, a crença no Uno criou uma grande simpatia. Estava tudo bem. Foi então que Alysson pôs-se a questionar, toda a igreja. Meu Deus! Olha a Merda! Pensei…

Novamente, eu estava enganado. Falara ele sobre a mercantilização da fé em longo discurso. E então exibindo muita sanidade o policial concordou! Fiquei estasiado… Alysson havia sido incisivo, direto, inquisidor. Esperava eu um caloroso debate, mas ao final, Antônio tinha as mesmas críticas. Mais uma vez, os “padrões” não se aplicavam naquele tempo, espaço e unidade. Meu Modus Operandi frente a realidade novamente falhou. Eu não prevera as coisas corretamente. Droga! Droga! Droga! O Ego se debatia. O que há de errado comigo? Qual detalhe não captei? Onde foi que errei na análise?

Chegamos em Custódia logo ao cair da noite. Antônio recusou-se a passar contatos da rede social por conta da profissão. Mas foi muito polido na recusa. Realmente independente do credo, aquele era um homem de fé. Foi aí que entendi. Os Homens de Fé nunca seguem padrões, não são meras cópias. São o que são. A Variável incalculável, a imprevisibilidade no sistema. Os agentes ocultos que fazem nosso mundo girar. Quando a ficha caiu, meu coração se encheu de conforto. Era ele também um buscador ao seu modo. Não pela ciência, pelas artes, pelo oculto ou pela magia. Mas pela crença. O que se chama de Fé Verdadeira. Um caminho para poucos e muito sensíveis, pois opera em esferas sutis da Realidade Interna. Fomos contemplados com uma grande presença naquele crepúsculo. Alysson, também percebeu.

Como as estrelas já brilhavam em enorme quantidade no céu noturno, tratamos de acampar em uma construção, preparar uma fogueira para afastar os mosquitos, fumar alguns cigarros e então finalmente dormir. Foi uma noite agitada, cheia de sonhos estranhos. A moça que eu conhecera na bienal ainda estava impregnada em mim. Eu a desejava, mesmo tendo certeza de que nossos destinos não mais se cruzariam por anos talvez. Como pode coração e mente serem tão contrários? Minha razão estava a falhar novamente. Mente controla coração! Mente controla coração! Mente controla coração! Reforcei. Então fiquei em paz.

Acordei repleto de picadas de mosquitos.

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2 comentários sobre “Mochilada no Nordeste – Parte 3 – Custódia

  1. O caminho de Compostela pode ser em qualquer lugar, não precisa ir Espanha. O que vale é a intensão de se descobrir; conseguir olhar com olhos da alma e do coração. As respostas estão dentro de nós mesmos, os caminhos das respostas surgirão naturalmente. Mas independente da questão da busca pessoal, as questões sociais debatidas nos encontros que você participa, serão mais valorizadas e reconhecidas quando são colhidas diretamente na pesquisa de campo e não só nos debates acadêmicos. Não se pode esquecer que a “sabedoria popular” é também uma sabedoria. Boas histórias e boa sorte.

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