Mochilada pelo Nordeste – Parte 2 – Pesqueira

Pesqueira - PE
Pesqueira – PE

Descemos do ônibus já na BR 232. Como saímos as 11:00 da casa de Roberto, o sol já castigava nossas cabeças dando uma amostra do que estava por vir. Andamos por meia hora na estrada. A vegetação é completamente diferente da do sul do Brasil, mesmo assim conservando os traços da natureza de litoral. A terra é arenosa, empoeirada e clara. Avistamos a placa que indicava Caruarú a pouco mais de 100 km. Logo abaixo dela estava um vendedor com sua barraquinha montada. Estava agachado a  descascar cana enquanto esperava por vender seus gomos de jaca já embalados. Aproximamo-nos e pedimos água, sendo atendidos prontamente com um sorriso e uma garrafa pet envelhecida. Bebemos uma água com gosto de terra, mas não esboçamos qualquer reação. Perguntei se podia levar comigo uns gomos de cana, já que seu açúcar seria precioso na viagem. Alysson se adiantou pedindo a Jaca também. Gentilmente aquele senhor marcado pelo sol nos deu de bom grado os alimentos. Estávamos sem dinheiro, foi necessário, assim como o seria por mais tantas vezes…

Caminhando um pouco mais avistamos um posto de gasolina. Lá esperávamos pegar carona com um caminhoneiro, mas não foi necessário. Um mulher de meia idade estava também na estrada a pedir carona protegida por um guarda sol. Estendendo a mão na rodovia ela conseguira parar uma caminhonete. Alysson correu em direção ao carro enquanto eu o observava perplexo… Afinal, ela podia estar atras de seu ganha pão… Sem escolha corri junto também. Assim que nos aproximamos ela já se retirou. Por um breve instante eu, Alysson e o motorista ficamos sem reação. Mergulhados naquele silêncio que vem depois de um acontecimento estranho. Certamente assustamos a mulher. Passado esse lapso de tempo, pedimos carona e logo subimos no carro.

Seu José era sargento do corpo de bombeiros e disse sempre dar carona a quem precisava. Contou-nos de várias performances de salvamento, de seu descontentamento com a política, o descaso que sofre a corporação, das “raparigas” da região, do seu gosto por uma cachaça chamada Pitú, muito popular na região. Seu gosto era tal, que desviou da rota para mostrar-nos a fábrica em Vitória de Santo Antão. Seu José já tinha os olhos e a pele avermelhada pelo álcool. Ainda assim  tinha postura muito reta, olhos fixos e alinhados. De repente parou no meio da estrada, e próximo a outra barraquinha nos ofereceu milho. Havia milho cozido e assado em brasa. Como nunca havia eu provado o assado, assim preferi. E de fato é melhor do que o cozido, conserva mais o sabor apesar de mais seco. Seguimos viagem. Em pouco tempo já estávamos em Caruarú. Agradecemos, nos despedimos e o sargento seguiu para casa.

Observávamos a cidade do alto da rodovia, era bem edificada, talvez uns 200 mil habitantes. Contemplamos por breves momentos e já nos apressamos em busca da próxima carona. Percebemos depois de alguns minutos que duas pessoas acenando ao mesmo tempo podia ser agressivo ao motorista que passava, então revezamos. Enquanto um estava na estrada o outro preparava cigarros com o fumo Trevo, barato e até certo ponto tragável.

Finalmente para um carro! Eram funcionários da prefeitura local, jovens e recém chegados ao cargo. Ambos comissionados. Parece que as instituições realmente estão impregnadas na minha vida. Pensei. Conversamos sobre a conjuntura política local, as necessidades da cidade e dos avanços pretendidos pela nova gestão. PSB se não me engano… Esse partidos estão crescendo em tamanho e influência, raciocinava eu. O assunto da política se esgotou, e como acontece com os viciados nela, depois de períodos longos de discussão, nada mais é dito. E assim foi até a cidade de Pesqueira.

Apressamo-nos em descer do carro, pois a rodovia estava agitada. Despedidas calorosas, porém rápidas foram a única solução. Já beirava as três da tarde e o estômago cobrava seus tributos. Não havia dinheiro. Entreolhamo-nos eu e Alysson. O que iremos fazer? Pedir comida, lógico! -Disse meu amigo. Confesso que aquele foi um momento estranho. Eu nunca havia pedido comida antes. O orgulho me corroía por dentro. Mente e corpo travavam uma batalha silenciosa dentro de mim enquanto nos dirigíamos a  churrascaria à frente. Calmamente Alysson me olha e diz: – Deixa comigo. E eu deixei. rs. Ele claramente percebera o desconcerto estampado em minha face. Imaginava eu que seriamos ridicularizados, enxotados, humilhados. Tolice a minha. Ao vê-lo voltar do estabelecimento com duas marmitas grandes e quentes, refleti sobre o quanto o orgulho as vezes é inútil, paralisante, apesar de todos os delírios de grandeza que dele provêm. Comemos uma farta refeição, sob o olhar curioso e lascivo das moças que trabalhavam por lá.

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