Mochilada pelo Nordeste – Parte 1 – Recife

Mochilada pelo Sertão.
Mochilada pelo Sertão.

Após todo esse tempo ausente, retorno aos nobres leitores com os relatos de minha “peregrinação” pelo nordeste brasileiro. Nesse um mês de viagem sem grana nem teto, certamente vivi mais do que viveria em um ano. Nenhum dia foi sequer parecido com o outro. Os encontros e desencontros, os ensinamentos que só o Acaso pode proporcionar, eu divido aqui, com aqueles que se permitirem ler as linhas que seguem.

No dia 26 de janeiro deste ano encerrara-se a Bienal da UNE tão esperada por aqueles do Movimento. Ela correra aos meus olhos, recheada de experiências boas e ruins. Engalfinhei-me em socos, bêbado e levei a pior… Vi o espetáculo da desordem que sofrem os movimentos da juventude, a fogueira de vaidade ardendo nas minúsculas lideranças do movimento estudantil. Os discursos repetidos sem reflexão pelos que seguem, os gritos de ordem pejorativos que pouco tem a ver com a disputa de idéias, a líbido explodindo por todos os cantos e ainda assim um banquete de cultura, arte, política e movimento. Mas assim como eu, são jovens. É compreensível, pois também cometo os mesmo erros. Entretanto me esforço em percebe-los.

Conheci também uma jovem, misteriosa e tímida com a dança do Cosmo pintada para sempre no corpo. Conversamos por horas sobre o amor e a vida. Com ela pude compartilhar meus conhecimentos sobre a Arte e o Ocultismo, encontrando nela uma ouvinte aberta e perspicaz. A delicadeza da sua voz, a graça nos movimentos, a inteligência crítica e anarquista, o sorriso simétrico e contido me enfeitiçaram. Ela era fantástica. Mas não poderia ser minha, não naquele momento. Respeitando seus nobres códigos, com os quais me identifiquei, não insisti, e contentei-me em ver aqueles louros cabelos finos e leves, num corpo pequeno e delicado partirem de volta pra casa. É… Não foi dessa vez.

Nessa mesma Bienal, nosso grupo foi golpeado pelo destino. Um dos nossos acaba por perder as rédeas da própria mente em plena atividade, sendo necessária a internação imediata. Os dias e noites penosos que só quem viveu aquelas cenas pode dizer como foi, ainda passam por minha consciência. A ignorância e descompromisso dos postos de saúde, o desdem de alguns profissionais, as condições pavorosas do hospital psiquiátrico de Recife, aliados ao medo de perder um amigo preso em sua própria cabeça é de um sofrimento sem precedentes.  Felizmente, tudo isso passou.

Resolvidas as questões problemáticas, eu e Alysson, que me acompanhara firmemente desde o internamento ocorrido, vislumbramos a oportunidade única de conhecer uma terra rica e estranha. O Nordeste era um mistério a ser desvendado, e o gosto pela aventura que nos atiçava finalmente falou mais alto. Resolvemos ficar e mochilar.

Como não havia mais onde abrigar-nos tratamos logo de procurar um teto. Alysson tinha contatos em Recife e os usou sem o menor pudor, típico de sua personalidade espontânea e explosiva. Tratava-se de um senhor, Gregório. Funcionário da Petrobras, disponibilizou-nos seu apartamento em reforma no bairro de Boa Viajem a poucas quadras da praia. Recebeu-nos muito bem junto a sua companheira, dando-nos um belo lanche com suco de cupuaçu, uma novidade para meu paladar. De lá, cansados pelo peso das mochilas e o vagar na cidade, seguimos para as novas acomodações. O apartamento era pequeno, mas bem planejado. Dispunha de uma grande sacada arejada que oferecia vista para a avenida direto do quinto andar. A orla de Boa Viagem tem prédios realmente lindos, bem espaçados, diferentes em suas arquiteturas. Infinitamente melhores que os prédios da zona sul do Rio, minha cidade natal, que são colados e praticamente iguais.

Já seguros, o segundo passou foi conseguir dinheiro para comida e locomoção. Assim que o dia raiou nos dividimos para ver o que conseguíamos. Eu, recorri a prefeitura, a assistência social e aos contatos do partido, retornando com poucas dezenas de reais. Mas isso pouco me importava, sabia no fundo que a Dama da Sorte estava a espreita e que com dinheiro ou sem ele, as coisas seguiriam seu curso como deveriam ser, pois assim é a Lei. Nos corredores do prédio imponente do Executivo, conheci várias pessoas de extrema bondade e solidariedade. A diretora do departamento de assistência social exibia diversos adereços místicos, que os Adeptos logo percebem. E de fato trocamos várias idéias sobre a Doutrina e o entrelaço de todas as coisas. Encontrei outro buscador logo ao sair as ruas.  Um bom augúrio! Pensei.

Ao anoitecer encontro Alysson de volta ao apartamento, com muito mais dinheiro que eu. Parece-me que algumas pessoas tem algum tato que eu desconheço com as tais cifras. Nos demos então ao luxo de tomar uma cerveja, comprar alguns cigarros e caminhar pela orla, trocando idéias sobre o céu e a terra. Esse meu companheiro de viagem, ao contrário da maioria, parece, mesmo sem nenhum treinamento ou estudo místico conseguir também tocar as esferas da realidade imanifesta e dialogar a longas distâncias na Imaginação. Não era necessária palavra alguma para que nos entendêssemos, fato estranho! Geralmente demora-se anos para conseguir tal conexão com um amigo. Talvez, a urgência e a profundidade nos acontecimentos da internação de nosso amigo acometido pelo surto tenha acelerado e rompido algumas etapas em nossas mentes, afinal foram realmente momentos muito violentos, preocupantes, extremos.

Naquela praia à luz da lua crescente, vi coisas estranhas. Jovens faziam corridas com cavalos. “Em plena capital?” Pensei… Eles se aglomeravam e pequenos grupos de torcida, soltos e leves como o povo daqui o é.  Nunca tinha ouvido nem visto tal cena. Cavalos fortes, corriam com seus montadores em velocidade impressionante! Jamais esquecerei o som dos cascos batendo violentamente na areia e as ondas do mar quebrando carinhosamente como só vi no Recife. Outra coisa bizarra são as placas alertando a presença de tubarões no mar, que por sinal é de um verde esmeralda espetacular. Nas águas quentes daquela cidade nadei, brinquei e boiei como criança. Danem-se os tubarões! Existem muitos outros mais de terno e gravata por aí…

Dois dias se passam e a reforma avança de tal forma que tornara-se impossível continuar no local. Despedimo-nos de Gregório e sua esposa. Sem outra alternativa voltamos ao campus da Federal de Pernambuco, onde se passara a Bienal. Sabíamos que lá ainda estavam instalados alguns estudantes “nômades” e procurávamos companhia junto deles. Chegando lá, tratei de colher algumas mangas e jambos nas árvores da universidade. Como sinal de boa intenção, reparti com aqueles que encontrei e fomos muito bem recebidos. A instalação tratava-se de um ginásio esportivo que dispunha de colchões gigantescos e trampolins. Mais uma vez voltei a ser criança naquela tarde.

Ao cair da noite, chegamos a conclusão de que aquele abrigo não iria perdurar. Afinal o evento para o qual viemos inicialmente já havia terminado a dias. E era uma questão de tempo, a expulsão vergonhosa do campus pelos seguranças do local. Foi então que um rapaz, que já sabia de nossos planos pelo nordeste nos entrega um papel com um número de celular anotado à lápis. Dizia ele ter conhecido o dono do número dias antes bêbado em uma das muitas festas que nos antecederam, e que ele oferecera sua casa como hospedagem. Já que ele mesmo iria partir, deixou o contato conosco. Sem muita alternativa, e com a sorte ao nosso lado conhecemos então a tal figura, Roberto.

Geólogo, bem humorado, comunicativo, mulherengo e bastante generoso, Roberto nos recebeu na sua casa, nas proximidades do campus. Ofereceu-nos junto a sua bela família uma deliciosa macarronada. Regados de cigarros e muita água por conta do calor que fazia mesmo sendo noite, ficamos conversando por horas. Aprendi muito sobre rochas, cristais, garimpo, mercado de trabalho no ramo, sobre a noite de Recife, as mulheres e as diversões locais. Fomos muito bem acolhidos.

Na manhã seguinte eu e Alysson discutíamos sobre o roteiro de nossa viagem. O impasse era se iriamos pelo litoral ou pelo sertão. Depois de analisarmos todas as alternativas, custos, dificuldades, paisagens e tudo o mais, percebemos que todas as capitais do nordeste tem sede no litoral, sendo assim, não conheceríamos de fato nada novo. Convenhamos, todas as capitais em essência são iguais: viadutos, carros, prédios, mendigos, shoppings, fumaça e blá blá blá. Sendo assim, tomamos nossa decisão. Iriamos pelo sertão. Roberto que era experiente na estrada deu-nos a direção e indicou um ônibus de linha que nos deixaria na saída certa da cidade. Ele manifestou o desejo de vir conosco para a aventura, mas o trabalho o legara certas obrigações. Despedimo-nos e então saímos da cidade.

Começara toda a aventura.

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Um comentário sobre “Mochilada pelo Nordeste – Parte 1 – Recife

  1. Encontrei o link do seu blog num grupo do facebook chamado “Filosofia, Religiões, Civilizações e Mistérios”. Confesso que não acessei o link em sua primeira postagem, na realidade somente hoje tomei a iniciativa de ler o que tinhas postado. Gostei bastante a maneira que você aborda as experiências que passou, a linguagem com que abordas as situações prendeu-me a tal ponto que estou ansioso para ler a próxima parte. Parabéns!!!

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